Copa 2014 deveria ser um meio para transformar as cidades-sede


Para o consultor Bráulio Borges, dificilmente o Mundial será um caso de sucesso no Brasil

Barcelona-92: mais investimentos na infraestrutura urbana (crédito: TVArk.org)
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Bráulio Borges*
postado em 06/10/2010 12:40 h
atualizado em 06/10/2010 12:48 h

Como já se anunciou com estardalhaço há algum tempo, o Brasil sediará a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Em função do fanatismo acima da média mundial dos brasileiros pelo esporte, é de se esperar que a realização desse evento tenha forte apelo popular. Mas quais são as vantagens sócio-econômicas de um país sediar um megaevento esportivo como esse?

Um levantamento mostra que em sete das 14 Copas do Mundo realizadas desde 1954 (excluindo o evento da África do Sul, que, por ter acontecido neste ano de 2010, ainda carece de maiores informações para avaliar seus impactos) o crescimento econômico no país-sede no ano do evento foi menor do que nos dois anos anteriores.

Os fatos estilizados do passado mostram que, no ano do evento, o PIB cresce menos do que nos anos anteriores, em função de fatores como: i) a redução do ritmo de investimentos associados ao evento (que são feitos previamente); ii) a redução do número de horas trabalhadas pela população em geral durante o período da Copa; e iii) uma redução do influxo de turistas (não aqueles que vêm para presenciar o evento, mas os demais, “afastados” pelos preços mais elevados de passagem/hospedagem praticados no ano do evento). Ou seja: geralmente o ano de Copa do Mundo não é um ano aquecido para a economia.

“Os fatos estilizados do passado mostram que, no ano do evento, o PIB cresce menos do que nos anos anteriores”

Não obstante, nos anos seguintes o crescimento do PIB nos países que sediaram a Copa do Mundo voltou a acelerar, avançando em um ritmo maior do que o observado antes da realização do evento – findo os fatores descritos acima, e com um impulso adicional do turismo, associado a maior promoção do país no exterior.

O primeiro estudo para se avaliar o impacto socioeconômico da realização de megaeventos esportivos foi feito para os Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles, tendo como motivação reportagens que apontaram que os jogos de 1976 em Montreal geraram perdas financeiras significativas. Esses estudos costumam levar em consideração uma série de fatores diretamente ligados à realização do evento, como os investimentos em infraestrutura desportiva e urbana, incremento no fluxo de turismo, atração de novos negócios/empresas, geração de empregos adicionais, dentre outros.

Mas muitas vezes os impactos positivos socioeconômicos são subestimados (por considerar custos como benefícios e, principalmente, por ignorar os chamados custos de oportunidade –isto é, se os recursos que estão sendo utilizados para sediar aquele evento não seriam de mais valia para a sociedade se fossem utilizados em outros fins alternativos).

“Uma avaliação do Brasil mostra que dificilmente vamos entrar para a história como um caso de sucesso”

Os principais casos de sucesso a posteriori de cidades/países que sediaram megaeventos esportivos são Barcelona-92 e Sydney-2000. Os denominadores comuns entre ambos apontam como elementos cruciais desse sucesso: i) o planejamento prévio (para reduzir a construção de obras a toque de caixa, a custo significativamente mais elevado); ii) investimentos muito mais focados em infraestrutura urbana do que desportiva; iii) revitalização de áreas urbanas degradadas; e iv) promoção turística da cidade/país no exterior. Ou seja: esses eventos foram utilizados como um meio de transformar essas cidades e não foram vistos como um fim em si.

Uma avaliação do Brasil (ainda prévia, pois o evento acontecerá daqui a três anos) mostra que dificilmente vamos entrar para a história como um caso de sucesso. Não houve planejamento prévio (a maior parte das obras ainda nem foi iniciada). Além disso, o percentual (do total de investimentos anunciados) a ser gasto em infraestrutura desportiva está em torno de 25%, significativamente acima dos cerca de 10% gastos em Barcelona-92, Sydney-2000 e mesmo Alemanha-2006 (ou seja, proporcionalmente gastaremos menos em infraestrutura urbana, que é o principal legado desses eventos para a sociedade no médio e longo prazo). E, por fim, não há uma preocupação explícita em recuperar áreas urbanas degradadas nas cidades-sede.

*Bráulio Borges é economista-chefe da LCA Consultores

Fonte:

http://www.copa2014.org.br/noticias/5458/COPA+2014+DEVERIA+SER+UM+MEIO+PARA+TRANSFORMAR+AS+CIDADESSEDE.html

 

 

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