QUANDO SANGRA O CÉU!


“O céu sangra por vinte segundos. Vinte, ma belle. Se você pisca, perde. Se você olha a própria sombra, perde. Se você soluça tentando esconder o choro, perde. O céu sangra por vinte segundos, todo dia, ao final das tardes. Sem aviso mais exato, “é quando o sol suspira e camufla o horizonte sobre si”. As nuvens revelam que sob toda candura existe um corte. Existe uma arte dolorida, existe um parto gritado sem voz, existe uma saudade pungente. Acima da minha casa, tudo escorre, tudo desata. A ferida livre. A catástrofe, você diz. A gente sente. É um impulso atmosférico, ma belle. É uma ousadia pra gravar nas retinas que os nossos detalhes são sempre os nossos pedaços mais bonitos, mesmo quando sangram. Mesmo quando inflamam. Mesmo quando, enfurecidos, são um espetáculo antes da escuridão.

Faço carinho nas minhas cicatrizes. Você vê? Vinte segundos. Depois, me cubro com as minhas peles, como se cobrem de chumbo as nuvens. Eu nunca demoro a encontrar a primeira estrela da noite. Acho que é um dom. Vênus estava abaixo de ti.”

Claudia Calado

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